Com uma frequência cada vez maior temos visto nos noticiários especialistas utilizando a palavra estagflação. Em muitos casos, esse termo vem acompanhado de alertas, dizendo que o Brasil está vivendo ou está prestes a viver uma estagflação.

Mas afinal de contas, o que é uma estagflação? O que significa esse termo? Devemos nos preocupar com ele? Há algo que possamos fazer para evitar esse cenário? E mais: já estamos vivendo mesmo uma estagflação? São muitas as perguntas, nós sabemos, e por isso abaixo vamos tentar responder todas elas para que você entenda o momento atual.

O que é estagflação?

Estagflação é a união dos termos estagnação + inflação.

Esse termo é utilizado para explicar um cenário em que há uma estagnação do desenvolvimento econômico, aliado à elevação ou até descontrole da inflação.

Mas o que é a inflação?

A inflação é uma velha conhecida dos brasileiros, não é mesmo? Basicamente é a subida de preços de produtos, bens e serviços. A inflação é parte normal de qualquer economia mas, quando desregulada, é um problema para a população, que sente direto no bolso porque ela aumenta demais o custo de vida.

Geralmente ela acontece quando a demanda está maior do que a oferta, seja porque o poder de compra da população está alto ou a produção de um item está baixa. No início da década de 1990, por exemplo, o Brasil passou por um período de hiperinflação, em que os valores dos produtos e serviços mudavam diariamente.

E o que é a estagnação econômica?

A estagnação econômica, por sua vez, é quando a economia para de crescer na comparação com o ano anterior. Quando um país está indo bem, a tendência é que se registre crescimento das atividades. Mais gente comprando, mais empresas e comércios vendendo, aumento do número de empregos e um cenário geral positivo. Quando as coisas não vão muito bem, a situação fica estagnada.

Vale lembrar que estagnação não é a mesma coisa que retração, que é quando as atividades reduzem em relação ao período anterior. Estagnação, como o próprio nome já diz, é a permanência, como uma partida que termina em zero a zero.

Causas da estagflação

Se os dois fatores acontecem ao mesmo tempo (inflação e estagnação), temos a chamada estagflação. Foi o que aconteceu em 2017 no país vizinho, a Argentina: enquanto o PIB retraiu 2%, a inflação acumulada do ano ficou na casa dos 25% (três vezes mais do esperado para o Brasil em 2021).

Você já deve ter se acostumado com o sobe e desce do dólar, não é? Nos últimos anos, porém, houve muito mais subidas do que descidas e quando isso acontece muito rápido, passa a valer mais a pena enviar os produtos para o exterior e ganhar em dólar, desabastecendo o consumo local.

E se a oferta é pequena e a demanda grande... você já sabe o que acontece, né? Os preços aumentam muito, é a INFLAÇÃO. O problema é que a o mercado não está aquecido porque a população não está bem economicamente. A taxa de desemprego está em um patamar recorde de 14%. Some aí instabilidades que afugentam investidores estrangeiros, pressiona ainda mais o dólar, e está dada a receita para a estagflação acontecer em um jogo que ninguém sai ganhando.

O Brasil está em estagflação?

Tecnicamente não. O termo começou a ser discutido porque o PIB brasileiro caiu 0,1% no segundo trimestre de 2021, o que acendeu o alerta nos especialistas. Mas três meses de um ano inteiro é um período muito curto para fazer esse tipo de análise.

Porém, alguns especialistas apontam que estamos beirando essa situação, sim. E no nosso caso, o que nos trouxe até aqui não foi uma causa única, mas um conjunto delas.

A pandemia deu uma grande contribuição para isso, porque tornou necessárias as restrições. Aliado a isso, tivemos uma demora na resposta para um início da vacinação, o que fez com que novas ondas da covid-19 surgissem ao longo de 2021, agravando a situação econômica já difícil.

De lá pra cá, o país vem registrando uma inflação que vem em ritmo acelerado, com um aumento no preço de produtos importantes e a perda do poder de compra. Os combustíveis, por exemplo, sofrem influência do dólar, que se valorizou no período em detrimento de uma desvalorização do real.

Além disso a estiagem pela qual uma boa parte do país vem passando (a pior em mais de 90 anos), também contribuiu para a elevação dos custos da energia elétrica, e não apenas isso, mas também afetou a agricultura, prejudicando plantações como a da cana de açucar (o que resulta no aumento não só do açucar mas também do etanol).

Porém a agricultura também foi afetada pelo frio em 2021. Geadas intensas registradas em julho e agosto em regiões onde as geadas não são muito comuns (como a região Centro-Oeste, por exemplo) fizeram com que muitas plantações se perdessem, diminuindo a oferta de muitos produtos, como o café, e elevando o preço dos mesmos.

Por outro lado, os alimentos que não foram afetados por questões climáticas, tiveram seus preços elevados por causa do encarecimento do transporte, já que os combustíveis estão mais caros também, como já dito.

E nesse quesito ainda há também a questão das exportações, já que vender para fora do país, em dólar, se tornou mais vantajoso do que vender no mercada interno, diminuindo assim a oferta de determinados produtos em relação a demanda, o que sabemos, causa a inflação.

E numa tentativa de controlar essa inflação, o Banco Central, por meio de seu Comitê de Política Monetária (COPOM) se viu obrigado a lançar mão de uma de suas ferramentas: a elevação da taxa Selic, a taxa básica de juros, que saiu de 2% no início do ano e está em 6,25% hoje.

Ao elevar a Selic, o BC procura, normalmente, conter a demanda do mercado. Com os juros mais altos e o crédito mais caro, as pessoas gastam menos e guardam mais dinheiro, o que acaba baixando os preços. Porém, no cenário que já estávamos vivendo, isso dificultou ainda mais a retomada econômica.

Para agravar ainda mais a situação, há um constante receito de que os Estados Unidos elevem também sua taxa de juros. Atualmente ela está entre 0% e 0,25% ao ano, porém, se essa ela começar a ser elevada, muitos investidores que hoje fazem aplicações no Brasil, visando o retorno de 6,25% da nossa Taxa Selic (como em investimentos do Tesouro Selic, por exemplo), vão preferir investir lá nos EUA, que tem uma economia muito mais estável e menos arriscada que a do Brasil. Se isso acontecer, teremos uma valorização ainda maior do dólar frente ao real e então, adivinhem: INFLAÇÃO e ESTAGNAÇÃO.

Diante disso, o que temos é um país cujo crescimento está desacelerando, a geração de empregos está muito baixa num momento de pós-pandemia em que muitas pessoas perderam seu trabalho - até porque muitas pequenas empresas, que eram responsáveis por boa parte dos empregos do país, fecharam as portas. O alimento está mais caro, o combustível também, a conta de água e de energia elétrica idem. Nos últimos 12 meses a alta da inflação já soma 10,25% segundo o último relatório do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

Por isso, se a estagflação ainda não está aí, em termos técnicos, ela já é sentida por muitos brasileiros e o risco de ela acontecer nos próximos meses ou em 2022 existe, sim, até porque as projeções para o próximo ano não são das mais positivas também.

Quais são as projeções para 2022?

Já que tocamos nesse assunto, vamos falar brevente sobre as projeções atuais para 2022. De acordo com o Boletim Focus divulgado pelo BC na segunda-feira, 11 de outubro, para 2022, a estimativa é de que o IPCA fique em 4,14% ao ano, projeção que vem aumentando (há duas semanas era de 4,10%).

Já a expectativa de crescimento para o PIB de 2022 vem caíndo. Há seis semanas ela era de 2%. Depois ela ela registrou redução passando para 1,93% e então para 1,72%, em seguida foi para 1,63% e depois para 1,57%. Nessa semana, após nova queda, está em 1,54% ao ano. Se essa perspectiva se confirmar, esse será um crescimento muito pequeno. Se se confirmar.

E por fim, ainda segundo o Focus, a expetativa do mercado para a Taxa Selic até o fim de 2021 atualmente é de 8,25% e para 2022, acredita-se que ela deve subir ainda mais, chegando a 8,75%, voltando para os 6,50% em 2023 e se mantendo nessa faixa em 2024.

Devo me preocupar? O que posso fazer?

Infelizmente a situação é preocupante, sim. Uma estagflação cria um efeito cascata: a economia de um país não cresce, portanto o desemprego aumenta, portanto as pessoas têm menos dinheiro para gastar, o que deixa de movimentar a economia, e assim por diante. Situação muito difícil de ser revertida.

E o que se pode fazer? Essa pergunta é muito difícil de ser respondida, porque essa situação só pode ser revertida quando o país começa a gerar emprego, garantir estabilidade e ter a confiança dos agentes da economia: investidores, empresários e a população.

Uma alternativa, para tentar se proteger dessa estagflação é investir em dólar. Se você já um investidor, procure se expor mais a essa moeda ou até pense em investir diretamente lá fora, por exemplo. Se você ainda não investe, estude essa possibilidade.

Porém, nós também sabemos que essas são alternativas apenas para pessoas com sobras no orçamento, o que está longe do cenário da maior parte da população global e brasileira. Principalmente nesse momento em que vivemos. Então, o melhor é se preparar emocionalmente para tudo, porque tudo pode acontecer.

Com informações do blog do Nubank.